Quem pode fazer bori é a pergunta que vem logo depois que a pessoa entende o que o rito significa. A resposta curta pega muita gente de surpresa: quase todo mundo pode, inclusive quem não é da religião.
O que muda de uma pessoa para outra não é o direito de receber, e sim o caminho até lá, que só a casa abre. Aqui você vê quem pode, o que o terreiro pede antes, o que o resguardo cobra depois e por que esse rito não se faz sozinho.
Quem pode receber um bori, caso a caso
O bori alcança os adeptos de forma igualitária, sem distinção de posto dentro da casa. É o que registra o verbete de bori no candomblé, e é o que as casas praticam na rotina, caso a caso.
- Não praticante: pode. Fontes de casas de candomblé registram gente de fora do culto que procura terreiro só para dar um bori.
- Frequentador: pode. Quem visita a casa, assiste às festas e ainda não pediu para ser abiã está apto.
- Abiã: pode, e é o caso mais comum. O abiã é o não iniciado que já pertence à casa, e o bori costuma ser o primeiro rito dele.
- Iniciados: podem e repetem. Iaô e ebômi voltam ao bori ao longo da vida de santo, como manutenção ou em fase difícil. Os postos estão em cargos e hierarquia no candomblé.
- Criança: depende. A decisão é do responsável junto com a casa, e os zeladores divergem sobre idade. Não existe número fechado.
O ponto que resume tudo: o bori não é prêmio de quem já subiu na hierarquia. Ele é o rito que cuida do ori, a cabeça espiritual de cada um, tema de o que é ori.
O que a casa exige antes de dar um bori
Quem determina o bori não é a vontade da pessoa. É o jogo de búzios, lido pelo babalorixá ou pela ialorixá. O jogo diz se o ori pediu, o que ele pediu e quando. Sem essa leitura, o rito não acontece, e o funcionamento do oráculo está em o que é o jogo de búzios.
Fontes de casas de candomblé listam quatro condições que a pessoa deveria reunir antes de receber:
- Necessidade real, apontada pelo próprio ori no jogo, e não por ansiedade de fazer alguma coisa.
- Confiança na casa, na raiz dela e na seriedade de quem conduz.
- Ciência do preceito, ou seja, saber que existe resguardo depois e poder cumpri-lo.
- Confiança na mão do zelador, porque é ele quem toca a cabeça.
Se falta alguma delas, a casa costuma adiar, e adiar não é recusa, e sim preceito.
Se um terreiro oferece bori sem jogo, sem conversa e com preço de tabela na primeira visita, procure outra casa. O rito vem depois da leitura, nunca antes dela.
O bori não amarra você a casa nenhuma
Este é o dado que quase nenhuma página diz, e ele tira um peso grande de quem está começando. Receber um bori não obriga ninguém a virar filho ou filha de santo daquele terreiro, nem a fazer o santo depois.
Todo iniciado passou pelo bori, mas dar bori não faz de ninguém um iniciado, e a diferença entre os dois ritos está detalhada em o que é bori.
Quem quiser seguir adiante segue, e aí entra outro processo, com outro tempo e outro compromisso. Esse caminho é o da feitura, explicado em o que é iaô. Quem não quiser seguir, não segue, e o bori que recebeu continua valendo.
O resguardo e o que muda depois
O rito não termina quando a pessoa se levanta da esteira, porque vem o preceito, e ele varia bastante de casa para casa. Não confie em quem crava um número único.
O que as fontes registram como faixa:
- Cerca de um dia em casas que tratam o bori como cuidado pontual.
- Sete dias em boa parte das casas de ketu.
- Cerca de 21 dias na nação angola.
- Sem prazo fixo em algumas raízes, onde quem define é o orixá pelo jogo.
Durante o resguardo, o padrão citado é evitar sexo, álcool e bebidas escuras. Somam-se as comidas vedadas ao orixá da pessoa e os preceitos próprios da casa, assunto de quizilas no candomblé.
Há ainda o igbá ori, o assentamento da cabeça, que em algumas casas de ketu acompanha o bori. Ele não é regra: existe bori sem igbá, e quem não frequenta a casa como abiã costuma não precisar dele. O conceito de assentamento aparece em assentamento de santo.
Sobre o rito em si, o registro público para por aqui. Água e obi aparecem nas fontes como elementos presentes, e o obi tem página própria em obi e orobô. Sequência, cantos e quantidades são fundamento de casa e não se publicam.
O rito de cabeça em cada nação
Candomblé não é uma coisa só, e o rito da cabeça muda de nome e de forma conforme a raiz. As nações estão mapeadas em nações do candomblé.
- Ketu: é o bori, com recolhimento em torno de três dias e possibilidade de igbá ori.
- Angola: chama-se Nkudia Mutue, a energização da força da cabeça feita através das comidas, com uma variante que leva sangue. O registro está no verbete de candomblé banto.
- Jeje: existe rito de cabeça, mas o tempo e a forma mudam por casa, e não localizamos fonte aberta específica para cravar o nome.
E a umbanda? Ela não tem bori. O rito de cabeça dela é o amaci, a lavagem com ervas, que tem função e liturgia próprias. Confundir os dois é o erro mais comum de quem chega pela internet, e a diferença está em o que é amaci.
O que a casa avalia antes de marcar
Existem situações em que o terreiro prefere esperar. Aqui a honestidade vale mais que a lista fechada, porque as fontes abertas não estabelecem regra única.
Menstruação é a dúvida que mais aparece nas buscas. Muitas casas mantêm preceito de recolhimento durante o período, outras não. Pergunte ao dirigente e não leve a resposta para o lado pessoal: é preceito de fundamento, não juízo sobre você.
Gravidez, doença e luto seguem a mesma lógica. Nenhuma fonte confiável fecha proibição geral, e a decisão sai do jogo e da leitura da casa.
Sobre saúde, um cuidado necessário. A pesquisa acadêmica registra que a tradição associa o ori enfraquecido ao adoecimento, e o bori ao restabelecimento. Isso é leitura religiosa, e não substitui tratamento médico nem acompanhamento psicológico. Terreiro acolhe, e acolher não é tratar.
Se você ainda está se aproximando e nem sabe qual é o seu orixá, o quiz descubra seu orixá serve como porta de entrada curiosa. Ele não substitui o jogo de búzios, e nenhuma ferramenta on-line substitui.
Perguntas frequentes
Quem pode fazer bori?
Praticamente qualquer pessoa: não iniciados, frequentadores, abiãs, iaôs e ebômis. Há inclusive gente de outras religiões que procura terreiro só para receber o rito. O que define não é o posto de quem pede, e sim a leitura do jogo de búzios feita pelo babalorixá ou pela ialorixá da casa.
Precisa ser iniciado para tomar bori?
Não. O bori vem antes da iniciação, não depois. O abiã, que é o não iniciado ligado à casa, é justamente o perfil mais comum de quem recebe. Todo iniciado passou pelo bori em algum momento, mas receber o rito não torna ninguém iniciado nem obriga a fazer o santo.
Pode fazer bori menstruada?
Depende da casa. Muitos terreiros mantêm preceito de recolhimento durante o período menstrual e remarcam o rito, outros não trabalham com essa restrição. Nenhuma fonte aberta confiável fecha regra universal. Pergunte ao seu dirigente antes de marcar, porque a resposta é de fundamento da raiz.
Bori é a mesma coisa que feitura de santo?
Não. O bori alimenta e fortalece a cabeça, dura poucos dias e não vincula a pessoa à casa. A feitura é a iniciação, com recolhimento longo, obrigações contadas a partir dela e compromisso de vida inteira com o terreiro. Um pode levar ao outro, mas não são o mesmo rito.
Dá para fazer bori em casa?
Não. O bori se recebe, não se executa. Ele exige jogo prévio, cantos e fundamentos que só a casa detém, e quem conduz é babalorixá ou ialorixá. Apostilas de passo a passo circulam na internet e não têm valor ritual. Nenhuma loja vende kit de bori, e a nossa também não vende.
Onde comprar o material branco do preceito
A casa dirá o que pedir e o que levar. É comum que peça material branco e itens de uso corrente no axé. Na Joia Mística Laroyê você encontra o que a maioria das casas costuma pedir:
- Velas brancas: avulsas, de sete dias e a vela de bori
- Pano branco e ojá: para vestir e para amarrar a cabeça
- Louça branca, alguidar e quartinha de barro: peças do axé, tema de o que é quartinha
- Obi e orobô: as sementes que aparecem no rito
- Algodão, pemba branca e ervas frescas: itens de uso diário na casa
- Pano da costa e fios de conta: o pano da costa acompanha a vida de santo
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma palavra final. A loja fornece material, e material nenhum substitui fundamento. Quem dá o bori é a casa, com dirigente, esteira e jogo. Nosso papel para no balcão, e é assim que deve ser.
Referências
- João Ferreira Dias: o estudo sobre ori, destino e o ritual do bori entre os iorubás e no candomblé, revista Horizonte, PUC Minas, 2013
- Sônia Regina Corrêa Lages: a pesquisa sobre o ori, a saúde e as doenças dos filhos de santo, revista Horizonte, PUC Minas, 2022
- Wikipédia: o verbete do bori no candomblé, que registra o jogo de búzios instruindo o babalorixá
- Wikipédia: o verbete do candomblé banto, com o Nkudia Mutue, o ritual de cabeça da nação angola
- Fundação Pierre Verger: o acervo do pesquisador sobre o candomblé e os cultos iorubás