O dia de Iemanjá que muita gente desconhece cai em 15 de agosto. A data mais famosa é o 2 de fevereiro de Salvador, mas é em meados de agosto que boa parte dos terreiros de umbanda, sobretudo no Rio de Janeiro, saúda a Rainha do Mar no sincretismo com Nossa Senhora da Glória. Entender essa data é entender também quem é a Grande Mãe das águas salgadas.
Este guia reúne o perfil completo da orixá, a explicação do porquê de 15 de agosto, as várias datas que ela tem pelo Brasil, suas cores e saudação, e como honrá-la com respeito quando a sua festa se aproximar.
Quem é Iemanjá, a Rainha do Mar
Iemanjá é a senhora das águas salgadas, dos mares e dos oceanos, reverenciada como a grande mãe que acolhe e protege. Seu nome vem do iorubá Yèyé omo ejá, que se traduz como “mãe cujos filhos são peixes”, uma imagem que diz tudo sobre a sua maternidade vasta e generosa. Ela é a orixá do povo egbá, da região entre Ifé e Ibadan, na atual Nigéria, e na África estava ligada a um rio chamado Yemoja e, depois, ao rio Ogun.
No Brasil, a iabá ganhou o mar como morada e o título de Rainha. O sociólogo Reginaldo Prandi, referência no estudo das religiões afro-brasileiras, descreve a orixá como “a senhora das grandes águas, mãe dos deuses, dos homens e dos peixes”, e a aponta como talvez a divindade mais conhecida do país. Não é exagero: a imagem da mulher de vestes azuis emergindo do mar atravessa terreiros, praias e até quem não segue religião alguma.
Como mãe, ela rege a maternidade, a família, a fertilidade e o equilíbrio emocional. Mas o mar tem suas duas faces, e a tradição também reconhece o lado severo da senhora das águas: a iabá que pode trazer a força bruta das ondas a quem desrespeita o que é sagrado. Para situá-la no conjunto das divindades, vale ler o panorama sobre o que são os orixás.
Ficha técnica de Iemanjá
Antes de entrar na data e nas oferendas, vale fixar os elementos que identificam a orixá. As correspondências abaixo seguem o que é mais consensual entre as casas, com as variações regionais sinalizadas.
- Domínios: mar e águas salgadas, maternidade, família, fertilidade, equilíbrio emocional e a inteligência
- Cores: azul-claro e branco na umbanda; algumas casas incluem o cristal, o prateado e o verde-claro
- Elemento: água salgada, o mar aberto, as praias, as conchas e as pérolas
- Símbolos: o espelho, o pente e o leque, ligados à vaidade e à beleza da Rainha do Mar
- Dia da semana: sábado
- Saudação: “Odoyá!”, de Odô Iyá, “mãe das águas” ou “salve a mãe das águas”
- Oferendas: flores brancas (rosas, palmas e crisântemos), perfume, frutas como melão e melancia, manjar de coco, entregues à beira-mar
- Origem: iorubá, do povo egbá da Nigéria
- Sincretismo: Nossa Senhora da Glória em 15 de agosto, entre outras invocações marianas conforme a região
Odoyá, minha mãe! A saudação é o gesto de quem se reconhece pequeno diante da imensidão do mar e busca colo na maior das mães. Diante de Iemanjá, costuma-se abrir os braços para as ondas, como uma criança que espera o abraço.
Sobre o dia da semana, o sábado é o mais citado para a Rainha do Mar. Quando o assunto é cor, o azul e o branco são o consenso mais forte, presentes nas guias, nas velas e nas roupas usadas para honrá-la, como detalha o material das Raízes Espirituais sobre a orixá Iemanjá.
Por que o dia de Iemanjá é 15 de agosto
Quem procura a data de Iemanjá no calendário da umbanda encontra o 15 de agosto, e a razão está na história do Brasil. Durante a colonização, diante da proibição de cultuar os orixás, os africanos escravizados associaram suas divindades a santos católicos para continuar reverenciando sob outro nome. Foi estratégia de sobrevivência e resistência, não declaração de que orixá e santo seriam a mesma coisa.
A Rainha do Mar foi associada a Nossa Senhora da Glória, cuja festa cai em 15 de agosto, mesma data em que a Igreja celebra a Assunção de Maria. A ligação é transparente: assim como Maria é a mãe que acolhe e intercede, a senhora das águas salgadas é a grande mãe que ampara os seus filhos. As duas carregam o arquétipo da mãe protetora, e foi sob o manto de Nossa Senhora que a orixá seguiu sendo cultuada nos terreiros fluminenses.
Por isso, ao se aproximar a metade de agosto, muitas casas de umbanda preparam homenagens à mãe das águas: velas azuis e brancas, flores e oferendas levadas ao mar. Essa lógica de associar cada orixá a um santo e a uma data é a mesma que organiza o ciclo das festas afro-brasileiras, como mostra o artigo sobre o sincretismo dos santos e dos orixás.
As várias datas de Iemanjá pelo Brasil
Um detalhe que confunde muita gente é que Iemanjá não tem uma data única. A homenagem à Rainha do Mar muda conforme a região e a tradição, e cada cidade guarda a sua festa.
- 2 de fevereiro, Salvador: a maior celebração do país, na praia do Rio Vermelho, com milhares de presentes levados ao mar. É a data mais associada nacionalmente à orixá.
- 15 de agosto, Rio de Janeiro: a data da umbanda fluminense, no sincretismo com Nossa Senhora da Glória, foco deste guia.
- 8 de dezembro, litoral paulista: muitas casas de umbanda de São Paulo homenageiam a iabá nesse dia, ligado a Nossa Senhora da Conceição.
- 31 de dezembro, praias do Sudeste: na virada do ano, banhistas de várias crenças entregam flores e pulam ondas pedindo bênçãos à mãe das águas.
O verbete da Wikipédia sobre a Festa de Iemanjá registra essas datas regionais e o costume de cada cidade. O ponto importante é não tratar nenhuma delas como “a verdadeira”: todas são legítimas, fruto da forma como a devoção se enraizou em cada lugar. Para acompanhar as celebrações de cada divindade ao longo do ano, consulte o calendário dos orixás.
Iemanjá na umbanda e no candomblé
Embora seja a mesma orixá, a Rainha do Mar não é vivida da mesma forma nas duas tradições, e confundi-las apaga o que cada uma tem de próprio.
No candomblé, Iemanjá é uma iabá cultuada com seu assentamento, seus fundamentos e suas comidas, e aparece em diferentes qualidades, cada uma com seu temperamento e sua história. Entre os nagôs, uma das mais conhecidas é Ogunté, a guerreira ligada a Ogum. Tratar o candomblé como um bloco único apaga essa diversidade real das casas e das nações.
Na umbanda, a orixá atua sobretudo como uma vibração ou linha de trabalho ligada à maternidade, ao acolhimento e ao equilíbrio emocional. É a mãe a quem se recorre nas dores do coração, nas questões de família e nos pedidos de proteção. O sincretismo com Nossa Senhora, mais presente na umbanda, completa esse retrato da grande mãe que tudo acolhe. A senhora das águas salgadas tem ainda uma irmã muito próxima na devoção popular, a dona das águas doces: vale conhecer quem é Oxum para entender como as duas se complementam.
Como homenagear Iemanjá
A devoção à Rainha do Mar se faz com gratidão e respeito ao que é sagrado. O que segue é uma referência devocional, lembrando que cada casa tem suas orientações e que oferendas de fundamento se fazem sob a condução de um pai ou mãe de santo.
- Acenda uma vela azul-clara ou branca em local limpo, mentalizando gratidão e pedindo serenidade e amparo à mãe das águas
- Leve flores brancas ao mar, como rosas e palmas, com pensamento de paz e cuidado com a natureza, recolhendo o que não for biodegradável
- Saúde a orixá com o “Odoyá!”, de braços abertos para as ondas, como quem fala com a própria mãe
- Cuide da praia e do oceano, porque honrar Iemanjá é também respeitar a casa dela, o mar que ela rege
Dica de devoção: procure a Rainha do Mar para pedir acolhimento em momentos de tristeza, equilíbrio emocional e proteção para a família. A mãe das águas trabalha na vastidão e na calma, e ensina que toda dor, como as ondas, vai e volta até serenar.
A escolha consciente das velas faz parte da reverência. Para entender o significado de cada cor, veja o guia de velas rituais e seus significados.
Perguntas frequentes
Qual é o dia de Iemanjá?
A data varia conforme a região. Na umbanda, sobretudo no Rio de Janeiro, o dia de Iemanjá é 15 de agosto, no sincretismo com Nossa Senhora da Glória. Já a maior festa nacional acontece em 2 de fevereiro, em Salvador. Há ainda celebrações em 8 de dezembro e na virada do ano.
Por que o dia de Iemanjá é 15 de agosto?
Porque a orixá foi sincretizada com Nossa Senhora da Glória, cuja festa católica cai em 15 de agosto, mesma data da Assunção de Maria. No tempo da escravidão, associar a Rainha do Mar a uma santa permitiu manter o culto vivo, e a data ficou na tradição da umbanda fluminense.
O que significa a saudação Odoyá?
“Odoyá!” vem de Odô Iyá e quer dizer “mãe das águas” ou “salve a mãe das águas”. É a forma tradicional de saudar Iemanjá, um gesto de reverência e pedido de bênção dirigido à grande mãe do mar.
Quais são as cores de Iemanjá?
As cores mais associadas à Rainha do Mar são o azul-claro e o branco, que traduzem a serenidade e a profundidade do oceano. Algumas casas incluem o cristal, o prateado e o verde-claro. Essas cores aparecem nas velas, nas guias e nas roupas usadas em sua homenagem.
Qual a diferença entre Iemanjá e Oxum?
Iemanjá é a senhora das águas salgadas, do mar e dos oceanos, ligada à maternidade ampla e à vastidão. Oxum rege as águas doces, os rios e as cachoeiras, ligada ao amor, à riqueza e à fertilidade. São orixás diferentes e complementares, ambas reverenciadas como grandes mães.
Onde comprar artigos para Iemanjá
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- Imagens de Iemanjá com o manto azul, para o seu altar ou assentamento
- Velas azuis e brancas, nas cores da senhora das águas salgadas
- Flores e arranjos brancos para as oferendas à beira-mar
- Guias e contas azul-claro e cristal para devoção
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Referências
- Raízes Espirituais: artigo sobre a orixá Iemanjá, cores e saudação
- Wikipédia: verbete sobre a Festa de Iemanjá e suas datas regionais