O mês de agosto chega cercado de avisos: “não case, não mude, não comece nada”. A fama de “mês do desgosto” atravessa gerações, mas quase ninguém sabe de onde ela vem, e menos gente ainda sabe o que a umbanda de fato ensina sobre o período.
A verdade é mais bonita do que a superstição. Na umbanda, agosto é o mês de Exu, o guardião dos caminhos, e de Obaluaê, o orixá da cura. Ou seja: não é um mês de maldição, é um mês de proteção e de saúde. Este guia explica de onde nasceu o mito, por que o período pertence a esses dois senhores e quais banhos e resguardos você pode fazer para atravessá-lo bem.
Por que agosto ganhou fama de “mês do desgosto”
Antes de tudo, é preciso dizer com clareza: a má fama de agosto não nasceu na umbanda nem em nenhuma religião de matriz africana. Ela é uma superstição popular, antiga e externa, e tem origens bem documentadas.
O ditado “quem casa em agosto tem desgosto” vem de Portugal. Era em agosto que as caravelas partiam para o mar, e os homens embarcavam sem data de volta. Muitas noivas ficavam esperando anos, ou enviuvavam sem nunca ter vivido o casamento. Adiava-se a união para não atrair a separação.
Há ainda a raiz romana: o mês leva o nome do imperador Augusto e era período de campanhas militares, de guerra. E, ao longo da história, agosto acumulou tragédias marcantes: o início da Primeira Guerra Mundial, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, e, no Brasil, o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954. Some a isso o apelido de “mês do cachorro louco” ligado ao cio das cadelas e às antigas campanhas de vacinação antirrábica e está montada a fama.
Repare que nada disso é destino nem maldição. É construção cultural: fatos difíceis que se juntaram na memória coletiva e viraram crendice. Reconhecer isso é o primeiro passo para atravessar agosto sem medo.
Na umbanda, agosto é o mês de Exu e de Obaluaê
Enquanto o senso comum enxerga azar, a umbanda enxerga trabalho e cuidado. Agosto é dedicado a duas forças que, justamente, protegem e curam.
O primeiro senhor do mês é Exu, e aqui mora a maior confusão de todas. Exu não é o demônio essa é uma distorção herdada de traduções cristãs equivocadas. Na tradição, Exu é o guardião dos caminhos e das encruzilhadas, o mensageiro entre os mundos, aquele que abre e fecha as portas. Sem ele, nenhum trabalho começa. Sua saudação é “Laroyê Exu!”, seu dia é a segunda-feira e suas cores são o vermelho e o preto. Num mês de fama pesada, ter o guardião do movimento à frente é exatamente o que se pede.
O segundo é Obaluaê, também chamado Omulu, o orixá da cura em todos os seus aspectos. Senhor da terra, da saúde e das doenças, ele é conhecido como o “médico dos pobres”. Sua saudação é “Atotô!”, que pede silêncio e reverência diante do grande rei da terra. No catolicismo popular, Obaluaê é sincretizado com São Roque, celebrado em 16 de agosto o dia mais forte do orixá no mês. Um período regido pelo orixá da saúde é, por definição, um convite ao cuidado, não à ruína.
Agosto é mês de azar? O que a umbanda realmente ensina
Não. Agosto não é mês de azar, e tratar assim é reforçar um preconceito que sempre pesou sobre as religiões afro-brasileiras. A leitura umbandista é outra: agosto é um mês de resguardo, e resguardo não é castigo, é zelo.
Pense na palavra. Resguardar é proteger, guardar com cuidado, redobrar a atenção. É o que se faz depois de um parto, de uma cirurgia, de um trabalho espiritual: um tempo de recolhimento para que a energia se assente. Agosto convida a isso. Com Exu abrindo caminhos e Obaluaê cuidando da saúde, o mês pede que você desacelere, evite conflitos desnecessários e olhe para dentro.
Agosto não pede que você tenha medo. Pede que você tenha cuidado. A diferença entre os dois é a diferença entre viver encolhido e viver desperto.
Na prática, o resguardo de agosto é mais de comportamento do que de proibição mágica. Evitar decisões impulsivas, não alimentar brigas, cuidar do corpo e da mente, manter a fé firme. Nada disso “afasta o azar” porque azar não existe como força o que existe é a nossa energia, e ela responde ao cuidado que temos com ela.
Resguardo de agosto: banhos, defumação e proteção
Aqui entra a parte prática. Os rituais abaixo são gestos de higiene espiritual e de conexão, não fórmulas de resultado garantido. Faça com fé, com calma e com respeito à orientação da sua casa.
Banho de descarrego
O mais indicado para tirar o peso acumulado após um dia difícil ou um conflito. A base clássica reúne arruda, guiné e sal grosso. Ferva a água, desligue o fogo, adicione as ervas e o sal, deixe em infusão tampado e coe. Tome seu banho de higiene normal e depois derrame o preparo do pescoço para baixo, nunca na cabeça. Faça no máximo uma vez por semana o descarrego em excesso raspa a energia em vez de renovar. Veja o passo a passo completo no guia do banho de sal grosso.
Banho de limpeza mais suave
Para os dias em que você só quer renovar, sem descarga forte, use guiné e alecrim com uma pitada de sal grosso. É um banho de manutenção, bom para começar a semana leve. O banho de guiné sozinho também cumpre bem esse papel.
Defumação da casa
Defumar limpa o ambiente e serena quem mora nele. Ervas de proteção como a comigo-ninguém-pode, o alecrim e a mirra ajudam a firmar a paz do lar. Passe a defumação da porta para dentro, cômodo a cômodo, com a intenção de renovar o ar. O guia de defumação para descarrego traz as combinações e o modo de fazer.
Firmeza a Exu e homenagem a Obaluaê
Na segunda-feira, dia de Exu, acenda uma vela vermelha e preta e peça, com suas palavras, abertura de caminhos e proteção para o mês. É um gesto de conexão com o guardião, não de barganha. Vale entender antes como usar as velas rituais e como fazer uma oferenda com fundamento. Para Obaluaê, a pipoca (doburu) é a homenagem tradicional, junto de orações de cura e de um tempo de contato com a terra e com a natureza.
Um lembrete importante: o banho e a defumação cuidam da energia, mas não substituem o médico. Se algo no corpo pede atenção, procure a saúde física também Obaluaê é, antes de tudo, o orixá que ensina a cuidar da vida.
Perguntas frequentes
Por que agosto é considerado o mês do desgosto?
A fama vem de origens históricas e populares, não religiosas: o ditado português “quem casa em agosto tem desgosto”, ligado às navegações, e o acúmulo de tragédias marcantes no mês, como o suicídio de Getúlio Vargas e as bombas de Hiroshima e Nagasaki. É uma construção cultural, não um destino.
Por que agosto é o mês de Exu na umbanda?
Porque agosto é regido pelo guardião dos caminhos, aquele que abre e fecha as portas e protege o movimento da vida. Num período de fama pesada, ter Exu à frente é ter proteção. O mês também pertence a Obaluaê, o orixá da cura, celebrado em 16 de agosto.
Agosto é mês de azar de verdade?
Não. Azar não é uma força espiritual. Na umbanda, agosto é mês de resguardo e de cuidado, regido por Exu e por Obaluaê. O que muda o mês é a atenção que você tem com sua energia, suas escolhas e sua saúde, não uma suposta maldição.
Qual banho tomar no mês de agosto?
Um banho de descarrego com arruda, guiné e sal grosso ajuda a tirar o peso após conflitos, feito no máximo uma vez por semana e do pescoço para baixo. Para manutenção, um banho mais suave de guiné e alecrim renova a energia sem raspar o campo.
Qual é o orixá do mês de agosto?
Na umbanda, o mês é associado a Exu, guardião dos caminhos, e principalmente a Obaluaê (Omulu), o orixá da cura e da saúde, cujo dia mais forte no período é 16 de agosto, sincretizado com São Roque.
Onde comprar ervas, velas e artigos de resguardo
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para atravessar o mês de agosto com proteção e axé:
- Ervas para banho: arruda, guiné e alecrim, frescas ou secas, separadas ou em combos de descarrego
- Sal grosso ritualizado: preparado com intenção de limpeza
- Velas vermelhas e pretas: para a firmeza de Exu na segunda-feira
- Defumadores e ervas de proteção: comigo-ninguém-pode, alecrim e mirra para limpar a casa
- Imagens e guias de Exu e de Obaluaê: para firmar seu altar e sua devoção
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Referências
- Wikipédia: Exu (orixá)
- Wikipédia: Obaluaiê
- Significados.com.br: Obaluaê (Omolu), história do orixá da cura