Depois que os orixás novos abrem a festa, chega a vez dos mais velhos serem saudados. É nesse momento que a Oxum no Batuque desce as escadarias da casa: a senhora das águas doces, do ouro e da fecundidade, rainha da nação Ijexá e uma das grandes mães da religião no Rio Grande do Sul.
Este guia explica quem é Oxum dentro do batuque gaúcho: o seu domínio, a posição que ocupa no axé, as qualidades cultivadas no Sul, as cores, o dia, a saudação, as comidas e o sincretismo com as santas. Como sempre, a palavra final sobre o fundamento é da sua casa e do seu babalorixá ou ialorixá.
A rainha das águas doces e da nação Ijexá
Oxum é a orixá das águas doces: os rios, os lagos e as cachoeiras que correm mansos e dão vida à terra. É senhora do ouro, da riqueza, da beleza e da fecundidade, aquela a quem se pede pela família, pelo amor e pela fartura. Onde a água doce nasce e alimenta, ali está o seu axé.
No batuque do Rio Grande do Sul, esse domínio ganha um lugar de destaque. Oxum é a rainha da nação Ijexá, a mais difundida entre as casas gaúchas. Por isso, em boa parte dos terreiros do Sul, ela ocupa um posto de mãe e de referência, ao lado de Iemanjá e de Oxalá. Para entender esse quadro maior, vale conhecer as nações do batuque e o modo como cada uma organiza o seu culto.
Ori Iê Ieô, minha mãe! A saudação de Oxum ecoa nas casas de batuque, também ouvida no meio afro como “Ora iê iê ô”.
Oxum entre os orixás velhos do axé
No batuque, os orixás são chamados numa sequência, a ordem do axé, que vai do primeiro ao último em cada festa. Bará abre os caminhos, seguido pelo guerreiro Ogum e pelos demais orixás novos. Só então entram os orixás velhos: Oxum, Iemanjá e Oxalá, os fundamentos mais antigos da casa.
Essa ordem é uma hierarquia de idade espiritual, não de importância. Oxum está entre os mais velhos porque representa a água que já correu muito, a mãe madura que acolhe e sustenta. A sequência muda um pouco de nação para nação, mas a presença de Oxum perto do encerramento é uma constante. Para ver todos em conjunto, conheça os orixás do batuque.
As qualidades de Oxum no Batuque
No batuque, um mesmo orixá se manifesta em diferentes qualidades (também chamadas de passagens), cada uma com o seu fundamento e a sua idade. As qualidades de Oxum mais reverenciadas no Rio Grande do Sul são três:
- Oxum Pandá: a mais jovem, ligada ao amor, ao romance e à sedução. É a Oxum das paixões e dos pedidos do coração.
- Oxum Demum (ou Ademum): a madura, senhora do dinheiro, do patrimônio e da riqueza construída. A ela se pede pela estabilidade e pela prosperidade.
- Oxum Docô: a mais velha, ligada à sabedoria, ao equilíbrio e à ancestralidade. É a Oxum do conselho e da serenidade.
Cada qualidade tem os seus assentamentos, cantigas e preceitos, que variam de casa para casa. Por isso, estas são as mais citadas, e não uma lista fechada: a sua casa é quem diz qual passagem rege a sua cabeça e como ela é cuidada.
Cores, dia e saudação
Conhecer a ficha da orixá ajuda o filho de santo a honrá-la no dia a dia. No batuque, ela costuma ser assim:
Cores: todos os tons de amarelo, do claro ao ouro | Dia: sábado | Número: 8 e seus múltiplos | Saudação: “Ori Iê Ieô”
Sobre o metal de Oxum há variação entre as casas: algumas ligam a orixá ao cobre e ao ouro, enquanto outras falam em âmbar, coral, ouro e prata. Não é contradição, e sim a riqueza de uma religião viva, em que cada nação e cada casa guarda o seu fundamento.
As comidas de Oxum também são doces e douradas, como ela:
- Canjica amarela cozida, quindim e mel puro
- Omolocum, o preparo de feijão-fradinho com ovos
- Frutas amarelas como melão, laranja e banana-ouro
- Rosas amarelas, entregues em fontes, rios e cachoeiras
Uma marca do batuque gaúcho aparece até na mesa da orixá: em algumas casas, a influência italiana do Sul levou a polenta para junto das oferendas. É um sinal de como a religião se enraizou na cultura local.
Oferenda tem fundamento e se faz com orientação. A lista acima mostra o gosto da orixá, mas o modo, a quantidade e o momento certo quem ensina é a casa. Oxum abre caminhos de amor e fartura, mas a caminhada é de cada um.
Oxum e as santas: o sincretismo no Sul
Como em boa parte do Brasil, no Rio Grande do Sul Oxum foi sincretizada com imagens de Nossa Senhora. A mãe das águas doces conversou de imediato com as mães do catolicismo popular, e a associação variou conforme a qualidade da orixá.
Oxum Pandá costuma ser ligada a Nossa Senhora de Fátima e a Nossa Senhora do Rosário. Já as qualidades mais maduras, como Demum e Docô, aproximam-se de Nossa Senhora Aparecida e de Nossa Senhora da Conceição, muito celebradas em outubro. Esse encontro entre Oxum e a padroeira do Brasil aparece com força no artigo sobre Nossa Senhora Aparecida e Oxum.
É importante lembrar que orixá e santa não são a mesma entidade em suas origens. O sincretismo nasceu como estratégia de sobrevivência: durante a escravidão e a repressão, associar a orixá a uma santa católica permitia continuar cultuando sob outro nome. É uma ponte histórica de resistência, não uma igualdade teológica.
Como cada tradição cultua Oxum
A senhora das águas doces é reverenciada em várias tradições afro-brasileiras, mas cada uma tem o seu jeito. No batuque, ela é a rainha da nação Ijexá, cultuada nas qualidades e na ordem do axé que vimos aqui. No candomblé, é a orixá das águas doces cultuada em iorubá, com as suas próprias qualidades por nação. Na umbanda, rege uma linha de trabalho ligada ao amor e à maternidade.
Um traço do batuque gaúcho, estudado pelo antropólogo Norton Corrêa, é justamente essa adaptação à cultura do Sul, do uso da erva-mate à presença da polenta. Se você quer o perfil geral da orixá, para além do batuque, veja quem é Oxum. O importante é não tratar batuque, candomblé e umbanda como sinônimos: são caminhos distintos que, cada um a seu modo, reverenciam a mesma mãe das águas.
Perguntas frequentes
Quem é Oxum no Batuque?
É a orixá das águas doces, do ouro, da beleza e da fecundidade, e a rainha da nação Ijexá, a mais difundida no batuque gaúcho. Está entre os orixás velhos, saudada perto do encerramento da ordem do axé, ao lado de Iemanjá e Oxalá. A ela se pede pelo amor, pela família e pela fartura.
Qual é a saudação de Oxum?
No batuque, a saudação registrada é “Ori Iê Ieô”, também ouvida como “Ieieu” em casas da nação Jêje-Ijexá. No meio afro-brasileiro em geral, é comum a forma “Ora iê iê ô”. Todas exaltam a orixá das águas doces. A saudação exata pode variar conforme a casa e a nação.
Quais são as qualidades de Oxum?
As mais citadas no batuque são três: Oxum Pandá, a mais jovem, ligada ao amor; Oxum Demum, a madura, senhora do dinheiro e do patrimônio; e Oxum Docô, a mais velha, ligada à sabedoria e ao equilíbrio. Cada qualidade tem seus fundamentos, e a lista varia conforme a casa.
Qual o dia e as comidas de Oxum?
O dia de Oxum no batuque é o sábado, e o seu número é o 8. As comidas são doces e amarelas: canjica amarela, quindim, mel, omolocum e frutas como melão e laranja, além de rosas amarelas. Em algumas casas gaúchas, a polenta também entra nas oferendas.
Com qual santa Oxum é sincretizada?
Depende da qualidade da orixá. Oxum Pandá liga-se a Nossa Senhora de Fátima e do Rosário; as qualidades mais maduras aproximam-se de Nossa Senhora Aparecida e da Conceição. O sincretismo foi uma estratégia histórica de resistência, e não uma igualdade entre orixá e santa.
Onde encontrar itens de Oxum
Na Joia Mística Laroyê, você encontra o que precisa para honrar a mãe das águas doces na sua casa:
- Fios de conta e guias: nos tons de amarelo e ouro de Oxum
- Imagens de Oxum e de Nossa Senhora: para o altar e os assentamentos
- Velas amarelas: para firmar pedidos de amor e prosperidade
- Abanos, espelhos e leques dourados: símbolos da rainha das águas
- Ervas e flores amarelas: para banhos e oferendas nas águas
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Referências
- Wikipédia: verbete sobre o Batuque, religião afro-rio-grandense
- Instituto Humanitas Unisinos (IHU): entrevista com o antropólogo Norton Figueiredo Corrêa sobre o Batuque