O batismo na umbanda é o rito que apresenta a pessoa aos orixás e à corrente da casa. Ele acolhe criança e adulto, médium ou não. Não faz santo, não raspa cabeça e não transforma ninguém em médium.
Quem chega buscando o tema esbarra quase sempre nas mesmas três dúvidas. A idade certa para batizar. O que padrinho e madrinha estão assumindo. E o que fazer quando a pessoa já foi batizada na igreja.
Este guia responde as três. Também mostra o que acontece no dia, o que se leva, e por que quase nada disso é regra fixa da religião.
Batismo, cruzamento e amaci não são a mesma coisa
Aqui mora a confusão mais comum. A palavra batismo nomeia dois ritos distintos dentro da umbanda, e a internet costuma misturar os dois.
- Batismo de apresentação: aberto a qualquer pessoa, criança ou adulta, médium ou não. Apresenta o batizando aos orixás e à corrente da casa. É o rito deste artigo.
- Batismo de médium, ou cruzamento: só para quem entra na corrente mediúnica. O dirigente cruza com pemba os pontos do corpo, e o rito costuma vir acompanhado da lavagem da coroa.
- Amaci: a lavagem da cabeça com ervas maceradas, que firma o médium no orixá de cabeça. Tem fundamento próprio e está explicado em o que é amaci.
Várias casas organizam esses ritos numa lista de sacramentos que inclui ainda o casamento, a confirmação e a coroação do médium. A ordem e os nomes mudam conforme a tradição da casa.
Se você foi convidado para um rito e não sabe qual dos dois é, pergunte ao dirigente antes de comprar qualquer coisa. O material do batismo de apresentação é mais simples que o do cruzamento.
Como é a cerimônia de batismo na umbanda
O batismo acontece dentro de uma gira, com a casa aberta e a espiritualidade presente. Quem conduz é o pai ou a mãe de santo, com o amparo dos guias do terreiro.
A sequência mais recorrente é esta, sempre com variação de casa para casa:
- Chamada ao altar. O dirigente chama o batizando, os pais quando é criança, e os padrinhos.
- Posição. A criança fica no colo da madrinha. O padrinho fica ao lado, sustentando a vela acesa.
- Limpeza e purificação. Muitas casas limpam primeiro com sal grosso e só depois derramam a água consagrada.
- Pemba. O dirigente cruza pontos do corpo, em geral a fronte, o peito e as mãos.
- Rezas e pontos cantados. A curimba chama os orixás e os guias que amparam o rito.
- Encerramento. Em algumas casas vem um banho de pétalas, com rosas brancas distribuídas por uma entidade da casa.
A água pode vir da cachoeira, da nascente ou do mar. Por isso o batismo nem sempre acontece no barracão: cachoeira, rio e praia são locais igualmente tradicionais.
As ervas que entram na água são escolhidas pela casa. Não existe fórmula pública, e desconfie de quem publica uma como se fosse padrão da umbanda.
Quem pode ser batizado e a questão da idade
Adulto se batiza. A regra que circula em muitas casas é simples: qualquer pessoa que queira, sendo médium ou não, pode receber o batismo.
A diferença entre criança e adulto está em quem toma a decisão. Os pais entregam o filho ao rito. O adulto se apresenta por vontade própria.
Sobre a idade mínima, as casas divergem de verdade. Três posições convivem:
- Sem limite: há terreiros que batizam bebês, no primeiro ano de vida.
- A partir de nove ou dez anos: casas que preferem esperar a criança entender o que está recebendo.
- Na primeira infância: casas que tratam o batismo como sacramento único da vida e preferem fazer cedo.
Nenhuma das três é a regra da umbanda. Cada uma é a regra de um conjunto de casas. O artigo sobre as vertentes da umbanda ajuda a entender por que a religião não tem código único.
Padrinho e madrinha: o que se assume ao aceitar
Este é o ponto menos explicado por aí, e o mais pesado para quem recebe o convite.
Padrinho e madrinha assumem o compromisso de acompanhar o afilhado ao longo da vida. Orientam, protegem e respondem quando são chamados, dentro e fora do terreiro. Durante o rito, sustentam a vela acesa.
A escolha se faz por laço afetivo e por afinidade espiritual. Cargo na casa e posição social não entram na conta.
O formato dos padrinhos também varia. Algumas casas trabalham com um padrinho e uma madrinha encarnados, mais um par desencarnado que ampara pelo lado espiritual. Outras definem que o padrinho e a madrinha são um orixá masculino e um feminino, ou duas entidades da casa, sem par encarnado.
Aceitar apadrinhar não é honraria de um dia. É presença ao longo dos anos. Se você não pretende acompanhar a caminhada da pessoa, recuse com sinceridade e todo mundo sai ganhando.
O que levar no dia do batismo
A lista muda de terreiro para terreiro, e a casa sempre passa a sua. O conjunto abaixo reúne o que aparece com mais frequência:
- Roupa branca. Muitas casas pedem duas trocas, porque uma sai molhada.
- Vela branca de batismo, ligada a Oxalá. Para criança, algumas casas usam vela rosa e azul dos erês.
- Pemba virgem branca.
- Pano de cabeça.
- Guia de Oxalá. A conta é matéria-prima até passar pelo rito da casa, como explica o guia sobre guia de contas na umbanda.
- Toalha branca, sem estampa, no máximo com uma fita na cor do orixá de cabeça.
- Flores, com crisântemo, espada de são jorge e rosas brancas entre as mais pedidas.
A vela batismal costuma voltar para casa depois do rito e ficar guardada. Ela vira firmeza pessoal, e o significado das cores de vela mostra por que o branco de Oxalá abre esse caminho.
Sobre o preceito dos dias anteriores, também há divergência. Há casas que pedem sete dias de abstinência de carne vermelha, bebida e relações sexuais, com banhos marcados. Há casas que não pedem preceito nenhum. Pergunte à sua.
Não sabe qual é o seu orixá de cabeça? O teste em descubra seu orixá dá um primeiro caminho para escolher a fita da toalha.
Já fui batizado na igreja. Preciso batizar de novo?
Essa pergunta aparece muito, e a resposta honesta é que a umbanda não fala com uma voz só.
Parte das casas entende que vale o primeiro batismo recebido na vida. Nessa leitura, quem já foi batizado na Igreja Católica faz uma conversão, uma entrada consciente na nova corrente, e não um segundo batismo. Outras casas simplesmente batizam quem chega, sem distinguir.
As duas leituras circulam há décadas e nenhuma anula a outra. Nenhuma delas, vale dizer, trata o batismo católico como inválido. A discussão é interna à umbanda, sobre o próprio rito.
O batismo também não se confunde com a feitura de santo do candomblé. Na nação ketu, a iniciação envolve recolhimento, raspagem e obrigações que se estendem por anos, como mostra o texto sobre o que é iaô. Batismo de umbanda é uma cerimônia, não um ciclo iniciático.
Perguntas frequentes
O batismo na umbanda faz a pessoa virar médium?
Não. O batismo de apresentação acolhe e apresenta a pessoa aos orixás da casa. Quem entra na corrente mediúnica passa por outro caminho, com aspirantado, cruzamento e desenvolvimento, tratado em desenvolvimento mediúnico na umbanda. São trilhas diferentes.
Existe certidão ou livro de registro do batismo?
Algumas casas guardam registro próprio das cerimônias, outras não. Não existe documento oficial padronizado na umbanda, como acontece na igreja. Pergunte ao seu terreiro se a casa emite algum comprovante e como ele fica guardado.
Onde o batismo acontece?
No terreiro ou em ponto de força da natureza. Cachoeira, nascente, rio, lago e praia são locais tradicionais, porque a água consagrada tem papel central no rito. A escolha depende do fundamento e do calendário da casa.
Quanto custa um batismo na umbanda?
O rito em si não se vende. O que a família costuma custear é o material: velas, pemba, guia, pano de cabeça, toalha e flores. Casa que cobra taxa alta pelo sacramento merece uma segunda olhada antes de você seguir adiante.
Onde comprar o material do batismo
Na Joia Mística Laroyê, você monta o enxoval do rito sem correr atrás em cinco lugares:
- Velas brancas de Oxalá: e velas rosa e azul de erê para batismo de criança
- Pemba virgem branca: a pemba que o dirigente usa para cruzar os pontos
- Guias e contas de Oxalá: montadas ou em miçanga avulsa para a casa consagrar
- Pano de cabeça e toalha branca: lisos, no algodão que o rito pede
- Ervas e flores: crisântemo, rosa branca e espada de são jorge
Passe na loja, na Rua Benedito Zingari, 460, Bela Vista, em Extrema-MG, ou chame no WhatsApp com entrega para todo o Brasil.
Uma última palavra. O batismo abre uma caminhada, ele não a resolve. O que sustenta a criança ou o adulto batizado é a convivência com a casa, o cuidado dos padrinhos e a presença nas giras. Comece perguntando ao seu dirigente, que é quem conhece o fundamento do seu terreiro.
Referências
- Portal Terra: reportagem sobre o ritual de batismo dentro da umbanda
- Templo Espiritual Caboclo Pena Verde: descrição da sequência do batismo na casa
- Alma de Poeta: transcrição sobre idade, padrinhos e local do batismo na umbanda
- Gustavo Ruiz Chiesa: etnografia sobre aprendizado e hierarquia num terreiro de umbanda, Religião e Sociedade v. 40 n. 2 (SciELO)