Quem tira A Sacerdotisa no tarô quase sempre chega com uma pergunta objetiva e sai da mesa com a sensação de não ter recebido resposta. A frustração faz sentido, e ainda assim a leitura foi dada.
O arcano II é a carta do que existe e ainda não está disponível. Ela não informa: ela informa que não é hora de saber. Reconhecer isso muda a tiragem inteira.
Este guia traz a ficha do arcano e os símbolos que Arthur Edward Waite descreveu em 1910. Traz também a história de uma carta que nasceu com tiara papal e a leitura invertida, com um detalhe que quase nenhum site brasileiro mostra.
A Sacerdotisa responde o que você quer saber?
Não. E essa é a informação.
O arcano II descreve uma posição, não um desfecho. Ele diz que o assunto ainda está em formação, que alguém não falou tudo, ou que você já percebeu algo e ainda não admitiu.
Repare no desenho: quase todo elemento da carta cobre alguma coisa. O véu tapa o fundo, o manto cobre metade do rolo, os dois pilares ficam lado a lado sem que ela escolha um. Nada ali está exposto por inteiro.
Por isso a pressa é o pior conselheiro quando a Sacerdotisa cai na mesa. A carta pede tempo, silêncio e coleta de informação antes de qualquer movimento.
Se O Mago mostra alguém pronto para agir, A Sacerdotisa mostra alguém que sabe quando não agir. As duas cartas se completam, e é por isso que vêm em sequência.
Ficha do Arcano II
| Campo | A Sacerdotisa |
|---|---|
| Número | II, o segundo arcano numerado, logo depois de O Mago |
| Outros nomes | La Papesse (Marselha), La Papessa (Visconti-Sforza), The High Priestess (Rider-Waite-Smith). Em português: A Papisa e A Suma Sacerdotisa |
| Correspondência | a Lua, na atribuição astrológica mais usada |
| Em pé (leitura atual) | intuição, sabedoria interior, silêncio, paciência, estudo, mistério que pede tempo |
| Em pé, por Waite (1910) | segredos, mistério, o futuro ainda não revelado, silêncio, tenacidade, sabedoria, ciência |
| Invertida (leitura atual) | intuição ignorada, segredo que vaza ou sufoca, autoengano, decisão tomada pelo barulho externo |
| Invertida, por Waite (1910) | paixão, ardor moral ou físico, presunção, conhecimento superficial |
| Sim ou não | tende ao talvez, no critério que o blog usa em tarô sim ou não |
A letra hebraica associada à carta varia entre Beth e Guimel conforme a escola esotérica. Isso é atribuição de sistema, não consenso, e vale dizer ao leitor. A lista completa dos 22 arcanos está no guia dos arcanos maiores do tarô.
Símbolo por símbolo: o que a imagem esconde
A descrição abaixo segue o texto de Waite no Pictorial Key to the Tarot, de 1910, que continua sendo a fonte primária do baralho mais usado do mundo.
- Os pilares J e B: ela está sentada entre a coluna branca e a coluna preta do Templo místico, Jachin e Boaz. Branco e preto marcam a dualidade que ela sustenta sem tomar partido.
- O véu de palmas e romãs: o véu do Templo fica atrás dela, bordado com palmas e romãs. As romãs remetem ao ciclo e à fertilidade, as palmas ao princípio masculino.
- O rolo Tora: o pergaminho nas mãos dela traz a palavra Tora, a Lei Maior. O manto cobre parte do rolo de propósito, para mostrar que algumas coisas são ditas e outras ficam implícitas.
- A lua crescente aos pés: o ciclo lunar, a mente que trabalha por fases e não em linha reta.
- O diadema com o globo: a coroa lunar de três fases na cabeça dela.
- A cruz solar no peito: o equilíbrio solar dentro de uma carta inteiramente lunar.
Waite escreve ainda que ela já foi chamada de Ciência Oculta no limiar do santuário de Ísis, mas que o nome mais preciso seria Igreja Secreta.
Da papisa herege à guardiã do Templo
A Sacerdotisa é uma das cartas que mais mudou de rosto ao longo de cinco séculos.
| Fase | Como a carta aparece |
|---|---|
| Visconti-Sforza, por volta de 1450 | La Papessa é uma freira usando tiara papal. Historiadores do tarô, entre eles Michael Dummett, associam a figura a Maifreda da Pirovano. Ela foi uma freira lombarda eleita papisa por uma seita local e executada pela Inquisição em 1300 |
| Tarô de Marselha | La Papesse, a mulher entronizada com tiara e livro. O nome francês traduz como A Papisa, apelido que ficou no Brasil |
| Rider-Waite-Smith, 1909 | a tiara papal sai. Entram os pilares do Templo de Salomão, o véu de romãs e o rolo Tora |
Por trás da versão mais antiga está também a lenda da Papisa Joana, a história medieval de uma mulher que teria ocupado a cadeira de Pedro. Ela aparece em documentos do século XIII, com cronistas como Jean de Mailly e Martinho de Opava. A historiografia moderna rejeita a lenda como ficção, provavelmente de origem satírica.
O que interessa aqui é iconográfico. A carta começou como imagem de provocação e terminou como guardiã de um saber que não se entrega a qualquer um. A leitura atual carrega as duas camadas.
A Sacerdotisa na leitura: amor, trabalho e combinações
No amor, ela indica sentimento existente e ainda não dito, vínculo em fase de observação. Não é carta de declaração nem de definição de relação. O conselho é confiar no que já se percebe antes de exigir prova. O critério geral está no guia de tarô do amor.
No trabalho, aponta estudo, bastidor, informação que ainda não circulou e tarefa que pede sigilo. Também costuma sinalizar conversa acontecendo por baixo do pano.
Na espiritualidade, é a carta do recolhimento e da escuta. Aqui cabe uma ressalva: recolhimento é valor presente em muitas práticas, e isso não faz da carta um equivalente de nada.
No sim ou não, o resultado prático é esperar. A carta não nega o pedido, apenas informa que a resposta ainda não está formada.
Combinações mais buscadas:
- Com O Mago (I): o par fazer e saber. Ação de um lado, escuta do outro.
- Com A Lua (XVIII): duas cartas de véu na mesma tiragem. A Lua fala do que confunde e assusta, a Sacerdotisa fala do que está guardado. Juntas, pedem que a decisão saia da mesa por enquanto.
- Com O Sol (XIX): o segredo que finalmente vem à luz.
A Sacerdotisa invertida e a sombra da carta
Na leitura contemporânea, a carta invertida costuma apontar intuição ignorada. A pessoa percebeu, escolheu não olhar e decidiu pelo barulho de fora. Aparece também como segredo que vaza na hora errada, ou segredo guardado até virar peso.
Waite, em 1910, listou outra coisa para a mesma posição: paixão, ardor moral ou físico, presunção e conhecimento superficial. O contraste é útil. Na chave dele, a inversão do silêncio não é a falta de escuta, é o excesso de ardor e a certeza de quem estudou pouco.
Vale ler as duas camadas juntas. A pessoa que ignora a própria percepção costuma ser a mesma que se convence rápido demais.
Nenhuma das leituras é obrigatória. O método de trabalhar cartas ao contrário está explicado em cartas invertidas no tarô. Cada leitor decide se usa a inversão ou lê a carta pela posição na tiragem.
Uma última ressalva. O tarô nasceu como jogo de cartas na Itália do século XV e não faz parte da liturgia da umbanda nem do candomblé. A Sacerdotisa não é Orixá e não corresponde a nenhum. Correspondências desse tipo pertencem ao sistema próprio dos tarôs de orixás, que tem estrutura brasileira e outra lógica.
Perguntas frequentes
O que significa a carta A Sacerdotisa no tarô?
Significa saber que existe e ainda não está disponível. Ela indica intuição, estudo, silêncio e paciência, e sinaliza que o assunto da pergunta ainda está em formação. A leitura prática é observar e reunir informação antes de decidir, em vez de cobrar uma resposta imediata.
Qual é o número da carta A Sacerdotisa?
É o número II, o segundo dos 22 arcanos maiores, logo depois de O Mago e antes de A Imperatriz. Na numeração romana aparece como II, e alguns baralhos trazem o nome A Papisa no lugar de A Sacerdotisa, principalmente nas versões ligadas ao Tarô de Marselha.
O que significa A Sacerdotisa invertida?
Na leitura atual, indica intuição ignorada, autoengano ou segredo que vaza. Waite, em 1910, registrou sentidos diferentes para a mesma posição: paixão, ardor moral ou físico, presunção e conhecimento superficial. Vale considerar as duas chaves antes de fechar a interpretação.
A Sacerdotisa no tarô é sim ou não?
Tende ao talvez. Como é a carta do que ainda não se revelou, ela empurra para esperar e reunir mais informação em vez de fechar a resposta. Em tiragens objetivas, o mais honesto é dizer que a pergunta ainda não tem resposta formada.
Por que A Sacerdotisa também é chamada de A Papisa?
Porque nos baralhos antigos ela aparecia como uma mulher de tiara papal, chamada La Papessa no Visconti-Sforza e La Papesse no Marselha. Waite retirou a tiara em 1909 e colocou os pilares do Templo no lugar, mas o nome antigo continuou circulando em português.
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O tarô é ferramenta de leitura simbólica e de autoconhecimento. Ele não prevê o futuro de forma fechada, não substitui médico nem terapeuta, e não decide nada no lugar de quem pergunta.
Referências
- Arthur Edward Waite: descrição do arcano II no Pictorial Key to the Tarot, parte 2
- Arthur Edward Waite: os significados divinatórios originais de 1910, parte 3
- Wikipédia: verbete The High Priestess, com a iconografia e a identificação de Maifreda da Pirovano
- Wikipédia: verbete Papisa Joana, sobre a lenda medieval e sua rejeição pela historiografia
- Maria Antónia Jardim, revista Meer: leitura da Papisa como arcano II no Tarot de Marselha