A umbanda é a religião mais brasileira que existe nascida aqui, no encontro entre a fé dos orixás africanos, a caridade do catolicismo popular, a mediunidade do espiritismo e a sabedoria dos povos indígenas. No centro de tudo está uma frase que resume sua missão: praticar a caridade, ouvir quem sofre e curar.
Neste guia você vai entender o que é a umbanda, como ela surgiu, quais são seus fundamentos, as sete linhas, os guias que trabalham nas giras e por que ela não tem nada a ver com “macumba”, feitiço ou demônio.
O que é a umbanda
A umbanda é uma religião afro-brasileira que se organizou no início do século XX, no Rio de Janeiro, reunindo elementos de várias tradições em um culto próprio e genuinamente nacional. Dela fazem parte o culto aos orixás herdado da matriz africana, a crença na reencarnação e na mediunidade de raiz espírita, a devoção a santos e a caridade do catolicismo popular e a reverência aos ancestrais e às ervas das tradições indígenas.
Acima de tudo está um Deus único, chamado Olorum (e também Zambi ou Oxalá, conforme a casa). Ele não é cultuado diretamente: manifesta-se no mundo por meio dos orixás e dos guias espirituais, que descem nas giras para orientar, consolar e curar quem procura ajuda. O fundamento que sustenta tudo isso é o axé a energia vital que dá força ao ritual e à comunidade.
A própria palavra “umbanda” tem raiz africana banto. As fontes apontam diferentes sentidos ligados à mesma origem: “lugar de culto”, “sacerdote” e a “arte de curar”. Todas convergem para a ideia central da religião um caminho de cura e de serviço ao próximo.
Origem: Brasil, início do século XX | Deus supremo: Olorum (Zambi / Oxalá) | Bases: matriz africana, catolicismo popular, espiritismo e tradições indígenas | Fundamento: axé e caridade | Espaço sagrado: terreiro, tenda ou centro | Liderança: pai-de-santo / mãe-de-santo
A origem da umbanda: Zélio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas
Segundo a tradição umbandista, a religião nasceu em 15 de novembro de 1908, em Niterói (RJ). Conta-se que o jovem Zélio Fernandino de Moraes, então com cerca de 17 anos, manifestou uma entidade que se apresentou como Caboclo das Sete Encruzilhadas, durante uma sessão na Federação Espírita local. Diante da recusa em aceitar o trabalho de espíritos de caboclos e pretos-velhos, a entidade teria anunciado que fundaria um novo culto, onde negros e indígenas pudessem cumprir sua missão de caridade. No dia seguinte nascia a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, considerada o marco fundador da umbanda.
A essa entidade atribui-se a frase que virou síntese da religião:
“A umbanda é a manifestação do espírito para a caridade.”
É importante, porém, tratar essa história com honestidade: ela é amplamente aceita e querida na comunidade umbandista, mas é também objeto de debate entre pesquisadores. A ata da sessão de 1908 não registra o episódio, e os relatos foram sistematizados décadas depois. Além disso, há registros de práticas afro-brasileiras de incorporação muito anteriores como as de Luzia Pinta, ainda no século XVIII, e de outros médiuns negros no século XIX. O sociólogo Reginaldo Prandi situa a organização da umbanda como tal mais próxima dos anos 1920. Em outras palavras: o Caboclo das Sete Encruzilhadas é o mito fundador da umbanda, e a religião tem raízes que vêm de muito antes dele.
Os fundamentos da umbanda
Mais do que um conjunto de rituais, a umbanda é uma forma de viver a fé baseada em alguns pilares. Conhecê-los ajuda a entender o que acontece dentro de um terreiro.
- Deus único: Olorum (Zambi, Oxalá) é o criador supremo, fonte de todo o axé.
- Orixás: divindades e forças da natureza herdadas da matriz africana, que regem as linhas de trabalho.
- Caridade: o eixo moral e religioso central. Na umbanda, o atendimento espiritual é gratuito ninguém paga para receber um passe ou uma orientação.
- Mediunidade: a comunicação entre o plano material e o espiritual. Os médiuns recebem os guias para que estes trabalhem em favor de quem procura a casa.
- Reencarnação e evolução espiritual: herança do espiritismo kardecista. Acredita-se que a alma reencarna para aprender e evoluir.
- Lei de causa e efeito (carma): toda ação tem consequência, e o serviço ao próximo faz parte do progresso espiritual.
Na umbanda, espiritualidade não se compra. Desconfie de qualquer “terreiro” que cobre por consulta, passe ou trabalho de guia a caridade é, por definição, oferecida de graça.
As sete linhas da umbanda
Uma das ideias mais conhecidas da umbanda é a das sete linhas grandes correntes de vibração, cada uma regida por um orixá, que organizam o trabalho espiritual. O modelo clássico mais citado costuma ser apresentado assim:
- Linha de Oxalá
- Linha de Iemanjá
- Linha de Xangô
- Linha de Ogum
- Linha de Oxóssi
- Linha de Ibeji (crianças / erês)
- Linha do Oriente
É preciso, no entanto, uma ressalva importante: a classificação das sete linhas varia bastante de autor para autor e de terreiro para terreiro. Algumas casas organizam o culto por orixás, como acima; outras trabalham com “falanges” de entidades caboclos, pretos-velhos, crianças, exus e pombagiras. Os dois modelos não são a mesma coisa e não devem ser misturados sem explicação. Mais do que decorar uma lista, vale entender o princípio: cada linha é um campo de força com características próprias, e os guias atuam dentro dela.
Os guias da umbanda: caboclos, pretos-velhos e exus
Os guias (ou entidades) são os espíritos que trabalham nas giras, incorporando nos médiuns para orientar e curar. Cada grupo carrega uma sabedoria e um jeito de trabalhar próprios:
| Guia | Quem representa e como atua |
|---|---|
| Caboclos | Espíritos de indígenas e ancestrais nativos. Trazem força, firmeza e cura com ervas e orientação direta. |
| Pretos-velhos | Espíritos de anciãos africanos escravizados. São a sabedoria, a paciência e o aconselhamento sereno da umbanda. |
| Crianças (erês) | Espíritos infantis ligados a Ibeji. Trazem alegria, leveza e pureza para a casa. |
| Exus | Guardiões dos caminhos e das encruzilhadas. Trabalham na proteção e na desobstrução de obstáculos. |
| Pombagiras | Linha feminina dos exus, como Maria Padilha. Atuam na proteção e em questões afetivas e de autoestima. |
| Baianos, boiadeiros e marinheiros | Outras falanges, ligadas ao sertão, ao campo e ao mar, com trabalhos de força e limpeza. |
Aqui é preciso desfazer uma confusão antiga: Exu e Pombagira não são “o demônio”. Essa associação é uma projeção cristã que não pertence à umbanda. Na religião, são guias de trabalho, guardiões que abrem e protegem caminhos e não têm relação alguma com o diabo das tradições abraâmicas. Vale lembrar ainda que a quimbanda é uma tradição própria, distinta da umbanda, com a qual costuma ser confundida. Para conhecer cada falange em detalhe, veja o guia sobre os guias da umbanda.
Como funciona uma gira de umbanda
A gira é a sessão de trabalho da umbanda o momento em que a casa se reúne, os pontos são cantados e os guias descem para atender. Mesmo variando de terreiro para terreiro, alguns elementos quase sempre estão presentes:
- Defumação: a queima de ervas que limpa a energia do ambiente e prepara as pessoas para o trabalho.
- Pontos cantados: os cânticos que louvam, chamam e despedem os orixás e as entidades, marcados pelo som do atabaque. Cada linha tem seu toque.
- Pontos riscados: símbolos desenhados com pemba (um tipo de giz sagrado) que identificam e firmam a entidade uma espécie de assinatura espiritual.
- A incorporação: os médiuns (também chamados de aparelhos) recebem os guias. É comum que se preparem antes com banho de ervas e abstinências.
- O passe e a consulta: incorporado, o guia aplica o passe uma limpeza e energização e ouve quem busca orientação, sempre como ato de caridade.
O atendimento é conduzido pelo pai-de-santo ou pela mãe-de-santo, dirigentes da casa, com a ajuda dos médiuns e auxiliares. Tudo gira em torno de um propósito: acolher quem chega e oferecer alívio.
Umbanda e candomblé não são a mesma coisa
É muito comum confundir as duas, mas umbanda e candomblé são religiões distintas. O candomblé é de matriz africana, formou-se na Bahia no século XIX e tem como centro o culto direto aos orixás, organizado por nações (ketu, jeje, angola), cada uma com sua língua litúrgica e seus ritos. A umbanda nasceu no Brasil no século XX e, embora também cultue os orixás, trabalha sobretudo com os guias caboclos, pretos-velhos, crianças, exus que se manifestam nas giras para orientar e curar.
Há ainda diferenças de estrutura: o candomblé tem a iniciação (a feitura de santo) e uma hierarquia ligada à nação; a umbanda desenvolve a mediunidade de forma progressiva, dentro da casa. São caminhos que se respeitam, compartilham raízes e às vezes se cruzam mas têm liturgias e histórias próprias. Se quiser se aprofundar, veja nosso guia sobre a diferença entre umbanda e candomblé.
Umbanda não é macumba nem feitiço
Umbanda é religião não é “macumba”, não é feitiço e não tem demônio. Essa distorção, infelizmente comum, é fruto do racismo religioso: o mesmo preconceito que, ao longo da história, levou terreiros a serem invadidos, fechados e criminalizados.
A umbanda cultua a caridade, a natureza e os ancestrais. Seus guias trabalham para curar e orientar, sem cobrar nada por isso. Usar palavras como “macumba” e “feitiçaria” para desqualificar a religião reproduz uma violência antiga contra a cultura negra brasileira. Respeitar é simples: tratar a umbanda com a mesma naturalidade com que se trata qualquer outra fé.
Perguntas frequentes
O que é a umbanda e no que ela acredita?
A umbanda é uma religião afro-brasileira surgida no início do século XX. Acredita em um Deus único (Olorum), nos orixás, na reencarnação, na mediunidade e, acima de tudo, na caridade. Seu trabalho central é receber guias espirituais nas giras para orientar e curar quem procura ajuda, sempre de forma gratuita.
Qual é a origem da umbanda e quem a fundou?
Segundo a tradição, a umbanda foi fundada em 15 de novembro de 1908, em Niterói, quando o médium Zélio de Moraes manifestou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Pesquisadores ressaltam, porém, que práticas afro-brasileiras semelhantes já existiam antes, e que a organização da religião se consolidou nas décadas seguintes.
Quais são as sete linhas da umbanda?
O modelo clássico cita sete linhas regidas por orixás: Oxalá, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Ibeji (crianças) e Oriente. Essa classificação, porém, varia muito entre autores e terreiros algumas casas organizam o trabalho por falanges de entidades, como caboclos e pretos-velhos. É um modelo de estudo, não uma regra única.
O que acontece em uma gira de umbanda?
A gira começa com a defumação e os pontos cantados ao som do atabaque. Os médiuns incorporam os guias, que aplicam passes (limpeza energética) e atendem quem busca orientação. Tudo é conduzido pelo pai ou mãe-de-santo como um ato de caridade, sem cobrança.
Umbanda é macumba ou faz mal?
Não. Umbanda é uma religião reconhecida e protegida por lei, voltada à caridade e à cura. A ideia de que “é macumba” ou “faz mal” vem do racismo religioso, não da prática real. Como em qualquer fé, o que importa é a seriedade e o respeito da casa que você procura.
Onde comprar artigos para a umbanda
Na Joia Mística Laroyê, você encontra tudo para acompanhar uma gira ou montar seu congá com respeito e fundamento:
- Imagens de guias e orixás caboclos, pretos-velhos, crianças, Exu e Pombagira para o seu altar
- Velas rituais nas cores de cada linha e entidade
- Defumadores e ervas para a limpeza energética do ambiente
- Guias e fios de contas (ilekes) nas cores dos orixás
- Pemba e artigos de gira para o trabalho dentro da casa
Visite nossa loja física em Extrema-MG ou fale com a gente pelo WhatsApp e enviamos para todo o Brasil. Em caso de dúvida sobre o uso correto de cada item, fale com a gente atendemos com orientação, não só com venda.
Para aprofundar: o verbete Umbanda na Wikipédia, a biografia de Zélio Fernandino de Moraes e o panorama sobre a umbanda no portal Significados. Referências de base: Prandi, R., estudos sobre religiões afro-brasileiras; Bastide, R., As Religiões Africanas no Brasil.
Referências
- Wikipédia: verbete sobre a Umbanda
- Wikipédia: biografia de Zélio Fernandino de Moraes
- Significados: panorama sobre a umbanda