O espiritismo é uma das doutrinas espirituais mais difundidas do Brasil e também uma das mais confundidas. No dia a dia, muita gente chama de “espiritismo” qualquer prática que envolva espíritos: umbanda, candomblé, mesa branca, tudo no mesmo balaio. Mas o espiritismo, no sentido próprio da palavra, é uma coisa só: a doutrina codificada na França por Allan Kardec a partir de 1857.
Neste guia você vai entender o que é o espiritismo, quem foi Allan Kardec, quais são as cinco obras que organizam a doutrina, no que os espíritas acreditam e ponto importante para quem é das religiões de matriz africana por que espiritismo, umbanda e candomblé não são a mesma coisa.
O que é o espiritismo
O espiritismo é uma doutrina sistematizada na França, em meados do século XIX, pelo educador Hippolyte Léon Denizard Rivail, que assinou a obra sob o pseudônimo de Allan Kardec. Seu marco de nascimento é a publicação de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857.
Mais do que uma religião no sentido comum, o espiritismo se apresenta com um tríplice aspecto: é ao mesmo tempo ciência, filosofia e religião. Como ciência, estuda a natureza e a origem dos Espíritos e a comunicação entre o mundo material e o espiritual. Como filosofia, reflete sobre o sentido da vida, o livre-arbítrio e o destino do ser. Como religião, propõe uma moral fundada no Evangelho de Jesus e na prática da caridade.
Por isso é comum os próprios espíritas dizerem que o espiritismo “não é só uma religião, é uma forma de ver o mundo”. No Brasil, a doutrina encontrou terreno fértil: o país é hoje o maior centro espírita do planeta em número de adeptos.
Origem: França, século XIX | Codificador: Allan Kardec (H. L. D. Rivail) | Marco inicial: O Livro dos Espíritos (1857) | Tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião | Lei maior: a caridade | Espaço de prática: centro espírita
Quem foi Allan Kardec
Allan Kardec é o nome espiritual de Hippolyte Léon Denizard Rivail, pedagogo francês nascido em Lyon em 3 de outubro de 1804 e falecido em Paris em 31 de março de 1869. Educador respeitado, discípulo do método pedagógico de Pestalozzi, ele adotou o pseudônimo justamente para separar seu trabalho com a nova doutrina de suas obras como professor.
Kardec não se considerava um profeta nem o “fundador” de uma fé revelada. Seu papel foi o de codificador: diante dos fenômenos das “mesas girantes” que intrigavam a Europa, ele aplicou um método de observação, reuniu e organizou as respostas obtidas em comunicações mediúnicas e submeteu tudo ao crivo da razão. Daí a frase que resume seu espírito de trabalho:
“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.” Allan Kardec
Essa origem metódica, e não revelada, é uma das marcas que distingue o espiritismo de outras tradições espirituais.
As cinco obras da codificação
A doutrina espírita está organizada em cinco livros publicados por Kardec entre 1857 e 1868, conhecidos como a Codificação ou Pentateuco espírita. Cada um trata de um aspecto da doutrina:
| # | Obra | Ano | Tema central |
|---|---|---|---|
| 1 | O Livro dos Espíritos | 1857 | Os princípios da doutrina, em mais de mil perguntas e respostas |
| 2 | O Livro dos Médiuns | 1861 | A mediunidade e a comunicação com os Espíritos |
| 3 | O Evangelho segundo o Espiritismo | 1864 | A moral cristã à luz da doutrina |
| 4 | O Céu e o Inferno | 1865 | A justiça divina e a vida após a morte |
| 5 | A Gênese | 1868 | A criação, os “milagres” e as leis da natureza |
A obra de partida é O Livro dos Espíritos, estruturado em 1.019 perguntas que vão das causas primeiras do universo às leis morais e às “esperanças e consolações”. É nele que se encontram, em forma de pergunta e resposta, os fundamentos que todas as outras obras desenvolvem.
No que os espíritas acreditam
Os pilares do espiritismo podem ser resumidos em alguns princípios que aparecem já em O Livro dos Espíritos:
- Existência de Deus uma Inteligência Suprema, causa primeira de todas as coisas.
- Imortalidade da alma o Espírito sobrevive à morte do corpo físico, que é apenas um envoltório temporário.
- Reencarnação o Espírito renasce em novas existências para evoluir moral e intelectualmente.
- Comunicabilidade dos Espíritos os desencarnados podem se comunicar com os vivos por meio da mediunidade.
- Pluralidade dos mundos habitados a vida e a evolução acontecem em incontáveis mundos.
A reencarnação é entendida como um mecanismo de justiça e de aprendizado: cada existência é uma oportunidade de progresso, regida pela lei de causa e efeito. Entre uma vida e outra, o Espírito permanece no plano espiritual, no estado que Kardec chamou de erraticidade.
Já a mediunidade é a faculdade de servir de intermediário entre os Espíritos e os encarnados. Para a doutrina, todos têm mediunidade em algum grau, ainda que nem todos precisem desenvolvê-la. As formas mais conhecidas são a psicografia (a escrita) e a psicofonia (a fala). Importa frisar: no espiritismo a comunicação mediúnica é sóbria e não envolve indumentária, dança ou incorporação de divindades algo bem diferente do que se vê nas religiões de matriz africana.
Acima de todos esses princípios, há um que a doutrina coloca como lei maior:
“Fora da caridade não há salvação.”
A caridade o amor ao próximo traduzido em ação concreta é o eixo prático do espiritismo, e tudo o mais se subordina a ela.
O que o espiritismo não tem
Boa parte da confusão sobre o tema se desfaz quando se observa o que o espiritismo não possui. Diferente da maioria das religiões, o centro espírita é um ambiente sóbrio, e a prática dispensa uma série de elementos:
- Não há rituais externos com oferendas materiais, defumações ou toques de instrumentos.
- Não há altares de culto, imagens ou velas como objeto de adoração.
- Não há sacerdócio nem clero o trabalho é voluntário, e a doutrina prega que toda orientação espiritual deve ser gratuita: “dai de graça o que de graça recebestes”.
- Não há hierarquia iniciática nem cerimônias de iniciação.
- Não se cultuam orixás nem divindades da natureza.
Um centro espírita típico se parece mais com uma sala de estudo e de assistência do que com um templo: cadeiras, livros, palestras, sessões de estudo do Evangelho e atendimento fraterno, com a aplicação do passe (transmissão de energia) como prática de auxílio. É essa sobriedade que dá ao espiritismo um rosto próprio.
Espiritismo, umbanda e candomblé: as diferenças
Aqui chegamos ao ponto que mais gera engano. No Brasil, “espiritismo” virou rótulo popular para tudo que envolve espíritos, e não é raro ouvir alguém chamar uma gira de umbanda de “sessão espírita”. Do ponto de vista das próprias religiões, porém, espiritismo, umbanda e candomblé são três tradições distintas, cada uma com origem, fundamento e liturgia próprios.
| Critério | Espiritismo (kardecismo) | Umbanda | Candomblé |
|---|---|---|---|
| Origem | França, séc. XIX | Brasil, séc. XX | Matriz africana, reorganizada no Brasil |
| Marco | Codificação de Kardec (1857) | Atribuída a 1908, com Zélio de Moraes | Tradição ancestral, sem fundador único |
| O que cultua | Deus; Espíritos em evolução; Jesus como guia moral | Orixás e guias (caboclos, pretos-velhos, exus, pombagiras) | Orixás, voduns ou inquices, conforme a nação |
| Base | Os 5 livros de Kardec (texto escrito) | Tradição oral; herança afro, católica e kardecista | Tradição oral, transmitida na iniciação |
| Práticas | Estudo, passe, sessões mediúnicas, caridade | Giras com cantos, incorporação de guias, oferendas | Xirê, atabaques, oferendas (ebó), feitura de santo |
| Local | Centro espírita | Terreiro ou tenda | Terreiro, ilê ou roça |
A proximidade entre umbanda e espiritismo tem uma razão histórica: ao nascer no início do século XX, a umbanda dialogou com o kardecismo e incorporou parte de sua linguagem mediúnica. Isso explica a confusão mas não a justifica. A umbanda tem teologia e prática próprias, com orixás, guias e oferendas que o espiritismo não tem. E o candomblé, de matriz africana, é ainda mais distinto: cultua os orixás organizado por nações (ketu, jeje, angola), com toda uma estrutura ritual que nada tem de kardecista.
Vale dizer com todas as letras: nenhuma dessas religiões é “superior” ou mais “evoluída” que a outra. Tratar a umbanda ou o candomblé como “espiritismo popular” ou “atrasado” é reproduzir um preconceito antigo. São caminhos espirituais completos, legítimos e diferentes e respeitar cada um na sua especificidade é o começo de qualquer conversa séria sobre o assunto.
Perguntas frequentes
O espiritismo é uma religião?
Depende do recorte. A doutrina se define por um tríplice aspecto ciência, filosofia e religião e nem todos os espíritas se veem como “religiosos” no sentido tradicional. Nos censos, porém, o espiritismo aparece como religião, e sua dimensão moral, fundada no Evangelho de Jesus e na caridade, é parte central da doutrina.
Quem foi o fundador do espiritismo?
O espiritismo foi codificado por Allan Kardec, pseudônimo do educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804–1869). Ele não se considerava fundador de uma fé revelada, e sim organizador (codificador) de uma doutrina obtida pela observação dos fenômenos mediúnicos, a partir de 1857.
Qual a diferença entre espírita e espiritualista?
A distinção é do próprio Kardec: espiritualista é todo aquele que acredita em algo além da matéria, em uma alma. Espírita é quem acredita, especificamente, nas relações com os Espíritos conforme a doutrina codificada. Ou seja: todo espírita é espiritualista, mas nem todo espiritualista é espírita.
O espiritismo acredita em reencarnação?
Sim. A reencarnação é um dos pilares da doutrina. Segundo ela, o Espírito renasce em novas existências para evoluir moral e intelectualmente, aprendendo com as experiências e reparando erros do passado, regido pela lei de causa e efeito, rumo ao aperfeiçoamento.
Espiritismo, umbanda e candomblé são a mesma coisa?
Não. O espiritismo é a doutrina kardecista, de origem europeia, sem rituais, orixás ou clero. A umbanda e o candomblé são religiões de matriz afro-brasileira, com orixás, guias, cantos e oferendas. São três tradições distintas, que às vezes se cruzam na história, mas têm fundamentos próprios.
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Para aprofundar, vale ler os verbetes sobre o Espiritismo e sobre Allan Kardec na Wikipédia, a relação das obras básicas do espiritismo e o material institucional da USE União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Se você é das religiões afro e quer entender melhor o que distingue cada caminho, comece por o que é candomblé, pela diferença entre umbanda e candomblé e por quem são as guias da umbanda.
Referências
- Wikipédia: verbete sobre o Espiritismo
- Wikipédia: verbete sobre Allan Kardec
- Wikipédia: relação das obras básicas do espiritismo
- USE União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo: material institucional sobre o espiritismo